Humanos + IA > IA
No início de junho, o MOPTOP lançou um disco depois de mais de 15 anos. Eu vi uma penca de shows deles no Rio lá por 2007-2009 e quase furei o primeiro CD deles de tanto escutar, então fiquei animada com a notícia (e mais feliz ainda de poder vê-los ao vivo novamente na semana passada).
Pois bem, assim que eles anunciaram a capa do disco no Instagram, teve um auê danado nos comentários porque a capa foi feita com IA. Os comentários criticavam a posição deles, como artistas, de utilizarem a tecnologia mesmo sendo para algo fora da música, o que pra mim foi totalmente compreensível. Esse desejo de ver o toque humano em todas as pontas é mais um exemplo de como a IA está no centro das discussões do dia a dia.
Ferramentas como o ChatGPT abriram a porta para muita gente conhecer o mundo da inteligência artificial. São os chamados LLMs (large language models), modelos que entendem e geram conteúdo por meio da análise de bilhões de parâmetros para prever o próximo token (basicamente um pedaço de palavra) mais apropriado a partir da instrução dada pelo usuário (o prompt).
Eles são probabilísticos por natureza, ou seja, o uso dessas ferramentas tende a te devolver o que mais aparece em seus dados de treinamento e faz conexões poderosas entre palavras e conceitos. Isso é ótimo para reconhecer padrões e responder perguntas diretas. Mas, para ir além, é preciso saber perguntar. No fundo, é quase como aprender um novo idioma.
Outro dia, falando justamente disso com a Luise Villa, ela me recomendou um artigo do Noam Chomsky (et al) no NYT intitulado The False Promise of ChatGPT. Em um trecho particularmente interessante do texto, um dos autores pergunta para o ChatGPT por que uma IA não pode ter uma perspectiva pessoal. Spoiler: ainda não. Ela te devolve o que está nos dados, mas isso não dá a ela a habilidade de formar opiniões ou crenças. O artigo é de 2023. Fiz a mesma pergunta para o GPT-4.1 e a resposta é bem parecida hoje.
Quando você tem (quase) toda informação do mundo no seu bolso, você tem que saber perguntar o que você quer dela. Aprender e buscar tornam-se mais proativos, ao contrário dos nossos tempos exploratórios de colocar um "prompt" vago de busca no Google. Em outras palavras: informação virou commodity. Padrões, a IA reconhece fácil - mas conexão, contexto, criatividade, experiência... isso vai ser cada vez mais valioso.
E o que fazer com dados proprietários? Muitas empresas ainda tentam entender como utilizar seus dados em um ambiente controlado. Se a informação vira commodity, conjuntos de dados únicos viram fonte de alfa. Já pensou em jogar anos de anotações de reuniões numa LLM privada e encontrar padrões escondidos ali? Sonho que, hoje, está cada vez mais real. Para quem quiser tentar, o CFA Institute publicou recentemente um guia prático sobre Private GPTs para análise de investimentos.
Como seres humanos, cada um de nós enxerga o mundo com seus filtros, fruto das nossas próprias vivências. Como é que uma IA vai modelar isso? Quem sabe um dia com a AGI (artificial general intelligence), ou a inteligência artificial que irá superar a inteligência humana? Tenho mais perguntas do que respostas - ainda mais quando penso sobre limites éticos, uso indevido das ferramentas, vieses de algoritmo, o futuro do mercado de trabalho...
Mas no fim das contas, talvez justamente o que nos faz humanos — nossa capacidade de conectar pontos improváveis, sentir, questionar e imaginar — seja o que nos mantém relevantes na era da inteligência artificial. Ainda que as máquinas avancem e aprendam cada vez mais rápido, são as nuances do olhar humano, nossas experiências e imperfeições que continuam a fazer a diferença no que criamos, decidimos e contamos. Humanos + IA > IA.
Quero saber de vocês: como a inteligência artificial entrou no seu dia a dia? Nos próximos dias, compartilho por aqui algumas ferramentas e conteúdos que têm me ajudado bastante nessa jornada.

Bem legal o texto CFA sobre o tema